Quarta, 12 de Agosto de 2020 - 08:32:13

Carnavais verbais

Posted by on Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009, 22:26
Este artigo foi publicado na categoria Acontece e possui Nenhum comentário até agora .

Utilizamos esta expressão, que encontrámos num texto do escritor mexicano Carlos Fuentes, com o sentido que o filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin cunhou no seu inovador estudo Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. Pretendemos, pois, aproveitar a subversão da ordem estabelecida que ao longo dos tempos foi sendo permitida durante o período do Carnaval.

Habituados à rigidez da «escrita escolar», que condena a repetição e que determina a ordenação lógica, os alunos resistem às primeiras tentativas de escrita com carácter carnavalesco. À medida que se vão libertando desses constrangimentos, experimentam o prazer da revelação da ambivalência da linguagem – ao mesmo tempo séria e cómica.

Foi assim que se chegou a estas brincadeiras com a linguagem verbal, em que se combinou o trabalho da lavoura com o escolar e, mais à frente, se emparelharam palavras com afinidades fonéticas iniciais, mas que, uma vez juntas, se distanciam pelo sentido.

 

I – A AgriCultura em ditados,  provérbios e conselhos



Se não queres ir com as ovelhas para o pasto,

estuda a história de Inês de Castro.

 

Se te irrita o cacarejar das galinhas,

Do sermão aos peixes lê muitas linhas.

 

Se a burra anda de trós-trós,

É porque anda a ler Eça de Queirós.

 

Se as vacas andam loucas,

É porque ao Pessoa não fazem orelhas moucas.

 

Se não sabes usar o tractor,

Estuda. Talvez chegues a doutor…

 

Se te custa apanhar a azeitona,

Estuda a literatura da zona.

 

Se não queres ir à vindima,

Estuda as regras da rima.

 

Se te custa a poda da tua tia,

Dedica-te a estudar poesia.

 

Se encontras terreno oco,

Enche-o com um autor barroco.

 

Se a vaca tem reumatismo,

Aceita e acredita no Sebastianismo

 

Se não tens jeito para cultivar feijões,

Resta-te estudar Camões.


 

No tempo de qualquer sementeira,

Foge e lê António Vieira.

 

Lembra-te: no tempo da courgette

Cultiva-te, lê Almeida Garrett.

 

Ai, custa-te usar as alfaias?

Então, porque não lês Os Maias?

 



 

 



II – No Carnaval – e no resto do ano – brinca-se em pares. Aqui pediu-se aos alunos que criassem pares de palavras que tivessem uma parte fonética comum e que a última terminasse nos sufixos «–ola» e «-ito». O resultado são listas de pares avulsos em que a primeira palavra tem um significado muito diferente do da segunda, o que diverte porque surpreende. A seguir, lê-se o rol a dois, dizendo cada um sua palavra ou cada um seu verso. Se souber bem, prova-se das duas maneiras, polvilhadas com ritmos rápidos, diferentes, entoações expressivas, gestos, saltos… ao gosto pessoal do humor.


 

Bala e bola

Caça e caçarola

Cacho e cachola

Cala e cola

Cara e carola

Castanhas e castanholas

Escala e escola

Estala e estola

Gaia e gaiola

Gala e gola

Mala e mola

Pista e pistola

Rala e rola

Sala e sola

Santa e santola

Sebo e cebola

Tala e tola

 

 

 

À pato e apito

Arrebato e arrebito

Átrio e atrito

Carro e carrapito

Fato e fito

Grão e granito

Grato e grito

Mango e manguito

Pala e palito

Rato e rito

Tacto e Tito

Bem e bendito

Bom e bonito

 

Daniela, Rute (10.º C); Cristofe, Marisa, (11.º A); Ana, Cátia, Letícia, Melinda , Paula (11.º B); Milene

(11.º C)  em sessão divertida do Clube de Leitura Palavras Vivas

 

 


 

 

 

 

Pode deixar um comentário , ou trackback do seu site .

Sem comentários para “Carnavais verbais”

Deixar um comentário