Utilizamos esta expressão, que encontrámos num texto do escritor mexicano Carlos Fuentes, com o sentido que o filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin cunhou no seu inovador estudo Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. Pretendemos, pois, aproveitar a subversão da ordem estabelecida que ao longo dos tempos foi sendo permitida durante o período do Carnaval.
Habituados à rigidez da «escrita escolar», que condena a repetição e que determina a ordenação lógica, os alunos resistem às primeiras tentativas de escrita com carácter carnavalesco. À medida que se vão libertando desses constrangimentos, experimentam o prazer da revelação da ambivalência da linguagem – ao mesmo tempo séria e cómica.
Foi assim que se chegou a estas brincadeiras com a linguagem verbal, em que se combinou o trabalho da lavoura com o escolar e, mais à frente, se emparelharam palavras com afinidades fonéticas iniciais, mas que, uma vez juntas, se distanciam pelo sentido.
I – A AgriCultura em ditados, provérbios e conselhos
Se não queres ir com as ovelhas para o pasto,
estuda a história de Inês de Castro.
Se te irrita o cacarejar das galinhas,
Do sermão aos peixes lê muitas linhas.
Se a burra anda de trós-trós,
É porque anda a ler Eça de Queirós.
Se as vacas andam loucas,
É porque ao Pessoa não fazem orelhas moucas.
Se não sabes usar o tractor,
Estuda. Talvez chegues a doutor…
Se te custa apanhar a azeitona,
Estuda a literatura da zona.
Se não queres ir à vindima,
Estuda as regras da rima.
Se te custa a poda da tua tia,
Dedica-te a estudar poesia.
Se encontras terreno oco,
Enche-o com um autor barroco.
Se a vaca tem reumatismo,
Aceita e acredita no Sebastianismo
Se não tens jeito para cultivar feijões,
Resta-te estudar Camões.
No tempo de qualquer sementeira,
Foge e lê António Vieira.
Lembra-te: no tempo da courgette
Cultiva-te, lê Almeida Garrett.
Ai, custa-te usar as alfaias?
Então, porque não lês Os Maias?
II – No Carnaval – e no resto do ano – brinca-se em pares. Aqui pediu-se aos alunos que criassem pares de palavras que tivessem uma parte fonética comum e que a última terminasse nos sufixos «–ola» e «-ito». O resultado são listas de pares avulsos em que a primeira palavra tem um significado muito diferente do da segunda, o que diverte porque surpreende. A seguir, lê-se o rol a dois, dizendo cada um sua palavra ou cada um seu verso. Se souber bem, prova-se das duas maneiras, polvilhadas com ritmos rápidos, diferentes, entoações expressivas, gestos, saltos… ao gosto pessoal do humor.
Bala e bola
Caça e caçarola
Cacho e cachola
Cala e cola
Cara e carola
Castanhas e castanholas
Escala e escola
Estala e estola
Gaia e gaiola
Gala e gola
Mala e mola
Pista e pistola
Rala e rola
Sala e sola
Santa e santola
Sebo e cebola
Tala e tola
À pato e apito
Arrebato e arrebito
Átrio e atrito
Carro e carrapito
Fato e fito
Grão e granito
Grato e grito
Mango e manguito
Pala e palito
Rato e rito
Tacto e Tito
Bem e bendito
Bom e bonito
Daniela, Rute (10.º C); Cristofe, Marisa, (11.º A); Ana, Cátia, Letícia, Melinda , Paula (11.º B);
Milene (11.º C), em sessão divertida do Clube de Leitura Palavras Vivas
